quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Heroes

Spinoza (me referindo ao filósofo holandês Baruch Spinoza, que viveu de 1632 a 1677), foi o primeiro a aplicar o que se chama de interpretação "histórico-crítica" da Bíblia, ou seja, contestava o fato de que cada palavra da Bíblia fosse inspirada por Deus.
À medida em que ‘as coisas foram piorando’ para Spinoza em decorrência de suas atitudes (considerando-se a influência da Igreja na época e local), este foi abandonado até por seus próprios familiares, que queriam deserdá-lo por causa de sua heresia.
As muitas resistências que ele teve de vencer levaram-no, finalmente, a se recolher a uma vida discreta, modesta e totalmente dedicada à filosofia. Ele ganhava o seu pão polindo lentes ópticas.
O fato de ele viver de polir lentes ópticas tem um significado quase simbólico. É que a tarefa dos filósofos é justamente ajudar as pessoas a verem sua vida sob uma nova perspectiva.
Estes dados foram retirados do livro "O Mundo de Sofia", escrito por um norueguês bem mais contemporâneo do que Spinoza chamado Jostein Gaarder, nascido em 1952 e que, felizmente, ainda vive.
Ao final da leitura deste livro, foram justamente a vida e os feitos de Spinoza que devam ter chamado mais a minha atenção dentre todo o percurso histórico-filosófico pelo qual passei.

Desejo que as pessoas tentassem “polir as suas lentes”, num sentido metafórico da expressão, é claro, e tentassem rever seus conceitos sobre o que consideram ser... um herói, por exemplo. (Sim, contei toda a história de antes apenas com este propósito: para que, talvez, o termo “polir as lentes” ganhasse uma roupagem melhor do que seu entendimento por senso comum).
O Dicionário Escolar da Língua Portuguesa de Francisco da Silveira Bueno, em sua edição de 1975, define o vocábulo ‘herói’ como um “homem extraordinário pelas suas proezas guerreiras, pelo seu valor ou magnanimidade”.
Serve como referência semântica, sem dúvida... mas se perguntassem a mim, o que eu acho que seja um herói, certamente responderia que é “alguém que, em vida, ou mesmo após sua morte, deixa algum legado para a humanidade; alguém atemporal, ou seja, cujas palavras, atitudes e cuja própria vida transcenda o tempo e a geografia; e, claro, alguém que admiremos, por um ou diversos aspectos e que, de certa forma, o tenhamos como referencial para guiar nossas próprias condutas”.
Mesmo que, muito provavelmente, quase todos os “meus heróis tenham morrido de overdose”, tomando a liberdade de parafrasear Cazuza (em sua canção ‘Ideologia’, de 1988), sem sombra de dúvida, suas vidas deixaram este legado ao qual me refiro às futuras gerações.

Nesta mesma data, 19 de janeiro, há exatos 30 anos atrás, o mundo se despediu de um deles. Em uma versão feminina... uma heroína, na verdade.
Elis Regina Carvalho Costa, nascida em Porto Alegre, me fez pensar sobre os heróis!
A melodia e o conteúdo poético de suas canções são exemplos claros de um legado deixado no mundo da música; são em minha humilde opinião, uma herança a todos os que possuírem refino intelectual.

Alguém que não queria nos “falar das coisas que aprendeu nos discos” e sim, nos “contar como viveu e tudo o que aconteceu consigo”. Acredito que a mesma simplicidade de sua vida, os mesmos conflitos e as mesmas esperanças façam parte da vida de todo ser humano que se preze e ela usou sua arte prá fazer com que todos entendam e convivam com as alegrias e os desesperos humanos ou talvez que possam, ao menos, refletir sobre eles e, só por isso, considero válido tudo o que ela tenha conseguido fazer e cantar em seus 25 anos de carreira.

Discordo que os heróis sejam cada um de nós, por nossas conquistas diárias, pela coragem que cada ser tenha de enfrentar o dia-a-dia... os heróis precisam ser pessoas acima da mediania, não podem ser pessoas comuns pois dessa forma, não seriam heróis!
E só no segmento música, uma de minhas formas de expressão de arte favoritas, poderia citar tantos outros considerados heróis pelas mesmas razões (tenho medo de esquecer de alguém e fazer injustiça portanto, neste momento, darei o privilégio da citação somente à Elis).
Resgatei Spinoza da Holanda do século XVII passando pelo Gaarder da Noruega e acabei no Brasil para que, num movimento quase de desespero, essas palavras consigam revelar os verdadeiros heróis às pessoas de nosso país e que essa reflexão faça justiça à quem mereça. Não consigo ser conivente com a parte de toda uma nação que glorifica, endeusa e venera oportunistas que cantam refrões vazios e que, bem no fundo, só acho que façam apologia à nada, a uma grande quantidade de nada.
Pelo menos ao meu redor, tenho um compromisso ético de ajudar a polir as lentes dos que sejam impossibilitados de fazê-lo por si só afinal de contas, não é isso que um educador deve se propôr a fazer?
“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Farroupilha

Essa não é a história de uma cidade. Por outro lado, talvez consiga descrever uma boa parte de minha própria história.
Não é tarefa fácil compilar ou sintetizar anos de fatos e talvez nem seja esse meu objetivo; não venho listar feitos ou acontecimentos.
Nasci em Caxias do Sul, uma cidade com quase meio milhão de habitantes.
O mundo foi dando voltas e voltas, e aos 15 de março de 2006, quase com 23 de idade, eis que me via, inesperadamente, trabalhando em Farroupilha, cidade esta que, até então, me era muito pouco familiar, pois havia estado ali somente uma vez, alguns anos antes, participando de um campeonato de Taekwondo.
Não conhecia absolutamente ninguém deste município... além do mais ele tinha quase 10 vezes menos habitantes do que Caxias, mesmo.
Um cenário a menos de 30 quilômetros longe da minha zona de conforto e, ao mesmo tempo, tão culturalmente distante e distinto.
Acredito que um lugar, por si só, vai ser ser sempre apenas um amontoado de paisagens e seus habitantes.
E foram justamente as pessoas que me chamaram mais a atenção. E admito que, mais do que da cidade, gostaria de falar de seu povo e de como essa relação com ele me modificou - para melhor.
Esse lugar e essa gente apareceram num momento de grande transição prá mim.
Eu tinha acabado de dar um novo rumo ao meu destino: trocado de curso na universidade e estava decidido a me tornar um professor.
Não sei, alguma coisa me dizia que era isso que eu deveria fazer, mesmo que eu não soubesse ao certo por onde começar nem a quem recorrer. Mas ter passado um tempo em um outro país antes disso acontecer me fez enxergar tudo aquilo que não conseguia perceber antes.
Enfim, o deslocamento tão difícil e o investimento de tempo foram os preços cobrados à vista.
No final das contas, eu não me importava muito com essas circunstâncias, uma vez que, estando lá, aquele lugar também parecia um pouco meu.
São incontáveis os nomes de quem acabei conhecendo mas alguns serão prá sempre inesquecíveis porque me mostraram que eu poderia ser feliz se eu continuasse com o que mais gostava de fazer: ensinar.
Fiz amizades em um tempo em que, por muitas vezes, toda a minha vontade era parar de acreditar nas pessoas, desisitir de confiar.
Foi um somatório de coisas mas eu me sentia acolhido e respeitado por todos.
Esse lugar e muitas pessoas que conheci constituem grande parte de minhas melhores recordações.
Depois de 5 anos passando mais tempo lá do que em Caxias, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, já é difícil dizer de onde sou.
Seria medíocre demais da minha parte simplesmente não agradecer a nada ou a ninguém por tudo isso.
Hoje, no auge dos meus quase 28, me sinto disposto e preparado para alçar outros vôos mas não estaria se não tivesse tido as chances que tive, o auxílio que me foi prestado e o carinho que recebi.
Mas isso é somente um recorte do que eu vejo quando páro prá avaliar esse tempo...
Fecho os olhos, revivo todos os rostos e as vozes dos que me importam, me sinto contente e sorrio.